Lob Infinito #010 — Quem fica do lado de fora?
Sobre convocação, merecimento e a responsabilidade de escolher o caminho de outra pessoa.

Imagine que a lista acaba de sair.
Você procura seu nome uma vez. Depois outra, mais devagar. Confere os nomes que estão ali, reconhece os colegas, faz algumas contas. Lembra de uma final, de uma vitória recente, daquele treino em que acreditou ter mostrado o suficiente.
Seu nome não aparece.
Pouco depois, chega uma mensagem:
“Não entendi. Você merecia.”
É uma tentativa de consolo. Também é o começo de uma pergunta que pode acompanhar o atleta por muito tempo.
Se eu merecia, por que fiquei fora?
Quem observa de longe costuma responder depressa. Foi injustiça. Foi preferência. Foi política. Quem escolheu não entende nada.
Quem está do outro lado da mesa talvez tenha uma explicação diferente: precisava de outra característica, de uma combinação específica, de alguém para cumprir determinada função.
Entre essas duas versões existe uma pessoa tentando compreender o que aconteceu com o próprio esforço.
É nesse espaço que uma convocação se torna maior do que uma lista.
O telefone que não tocou
No fim de setembro, Javi Leal e Fran Guerrero venceram o FIP Platinum de Lyon e comemoraram fazendo o gesto de uma ligação telefônica.
Os dois haviam ficado fora da seleção espanhola para o Mundial de 2026. A comemoração foi interpretada como um recado ao selecionador Juanjo Gutiérrez. Depois, áudios enviados pelo técnico circularam publicamente. Os jogadores negaram ter divulgado as mensagens e esclareceram que não pretendiam questionar os atletas convocados. Mundo Deportivo.
A cobertura descreveu a conversa como uma troca privada de ironias. Esse contexto precisa acompanhar o episódio: a referência a uma parcela da premiação foi apresentada como brincadeira, e não como uma exigência financeira real. Padel Magazine.
Mesmo assim, a cena é reveladora.
Dois atletas ganham um torneio depois de serem deixados fora. O resultado parece oferecer a resposta que procuravam: está vendo?
Mas uma vitória posterior consegue resolver toda a discussão sobre uma escolha anterior?
Gutiérrez havia justificado a inclusão de Jon Sanz e Aimar Goñi pelo padrão de jogo que, na sua avaliação, se ajustava às condições rápidas esperadas em Doha. Havia uma ideia de equipe por trás da explicação. Podemos concordar com ela, contestá-la ou perguntar se outros jogadores cumpririam melhor aquelas funções. Declarações ao Mundo Deportivo.
Para fazer isso, precisamos enfrentar uma pergunta anterior:
quando dizemos “o melhor”, estamos falando do melhor em quê — e para fazer o quê?
O ranking organiza resultados. Uma comissão precisa imaginar duplas, adversários, alternativas e papéis.
Um jogador pode oferecer uma qualidade excepcional que a equipe já possui. Outro pode acrescentar uma possibilidade que falta.
Essa é uma razão esportiva possível para deixar um grande atleta fora. Sua validade depende da coerência com que é aplicada e explicada.
A história pesa. A relação também.
Na seleção feminina espanhola, Carolina Navarro escolheu Marta Ortega para a vaga disputada com Alejandra Salazar.
Ao explicar a decisão, disse que procurou retirar da avaliação o peso da despedida de Salazar: se aquele não fosse o último ano de Alejandra, ainda escolheria Marta pelo rendimento que apresentava. Mundo Deportivo.
É um exercício difícil. Quem acompanha uma carreira conhece mais do que resultados. Conhece o trabalho, as lesões, a persistência, as vezes em que aquela pessoa esteve disponível.
Tudo isso participa da nossa maneira de olhar.
No futebol brasileiro, uma ausência marcou a discussão sobre a Copa de 2002: Romário.
Questionado sobre o que havia pesado na decisão, Felipão respondeu:
“Sempre disse que foram aspectos técnicos, táticos e de confiança, de fidelidade.”
A frase foi publicada em entrevista à Folha de S.Paulo, em 12 de maio de 2002. Leia a entrevista.
Confiança e fidelidade.
Duas palavras capazes de representar compromissos importantes: cumprir acordos, assumir responsabilidades, estar disponível para o grupo.
Também são palavras que precisam de explicação.
Fidelidade a qual compromisso? Confiança construída a partir de quais comportamentos?
Um treinador precisa avaliar pessoas com quem mantém relações. Pode admirar alguém, ter se decepcionado com outro, conhecer melhor quem trabalha perto dele.
A responsabilidade está em perceber quanto dessas relações entra na decisão.
A justificativa continuaria sendo a mesma se os nomes fossem trocados?
O grupo não pode ser uma palavra mágica
É possível imaginar um atleta excelente que dificulte o funcionamento da equipe. Desrespeita parceiros, não cumpre acordos, rejeita responsabilidades que sua participação exige.
Isso pode pesar numa escolha.
Mas “não é bom para o grupo” precisa significar alguma coisa que possa ser identificada.
Qual comportamento ocorreu? O atleta foi orientado? Teve oportunidade de compreender o problema? A mesma exigência vale para quem ganha mais?
Uma pessoa pode ser crítica e continuar comprometida. Pode discordar do treinador e cumprir seu papel. Pode ser reservada e contribuir para a equipe.
O desconforto que alguém provoca merece ser examinado antes de se transformar numa conclusão sobre seu caráter.
Há ainda situações em que o responsável pela escolha trabalha com candidatos em sua academia, tem vínculos comerciais com eles ou relações familiares envolvidas. São exemplos hipotéticos, não acusações sobre os episódios desta edição.
Esses vínculos não provam favorecimento. Mas pedem transparência e participação de outras pessoas na avaliação quando necessário.
Quem merece a vaga também merece um processo que permita reconhecer seu mérito.
Às vezes, o nome está na lista
No Brasil, a discussão ganhou outra forma no Mundial de Menores de 2025.
Ulisses Gianello Neto foi convocado para a categoria sub-18. Seu nome aparece na lista oficial da COBRAPA. Convocação.
Segundo reportagem do Super Padel, ele liderava o ranking nacional sub-16 e não entrou em quadra durante a competição. O atleta e a família questionaram a convocação para uma categoria superior e relataram falta de respostas às tentativas de esclarecimento. Essa é a versão apresentada por eles à reportagem. Super Padel.
Em nota, a COBRAPA afirmou que ser convocado não garante participação em partidas, que as escalações são responsabilidade da comissão técnica e que integrar a delegação envolve uma experiência que vai além dos jogos. Nota oficial, de 15 de outubro de 2025.
Esse caso pede uma conversa própria.
Estar na lista e entrar em quadra são decisões diferentes. A possibilidade de permanecer no banco precisa fazer parte da preparação de quem viaja.
Especialmente quando quem viaja ainda está em formação.
O jovem compreendeu seu papel? Sabia por que estava naquela categoria? Recebeu uma conversa individual sobre o que a comissão esperava dele?
Na minha visão, essas perguntas pertencem ao trabalho de uma seleção.
É possível aprender esperando uma oportunidade. Para isso, quem espera precisa ser acompanhado.
A escolha continua depois da lista
Ao assumir a seleção principal brasileira em 2024, Pablo Lima declarou que se apoiaria no nível técnico, mental e físico dos jogadores. Reconheceu também que suas decisões não agradariam a todos. Entrevista ao Super Padel.
Nenhuma convocação consegue eliminar a frustração.
Uma explicação pode ser coerente e ainda assim doer. O atleta pode compreender a escolha e continuar discordando dela.
Ainda assim, existe uma diferença entre lidar com uma decisão difícil e tentar adivinhar o que faltou.
Por isso, considero tão importante conhecer os critérios antes da lista, conversar com quem ficou fora e preservar a dignidade de quem faz perguntas.
Isso vale para uma seleção nacional. Também vale para o treinador que escolhe uma dupla, para o professor que distribui oportunidades e para quem decide quais pessoas terão acesso ao próximo passo.
O resultado virá depois. Poderá fortalecer uma hipótese esportiva ou mostrar que ela precisava ser revista.
A responsabilidade com as pessoas já existe no momento da escolha.
Voltemos àquela lista.
Talvez seu nome realmente devesse estar ali. Talvez outra formação fizesse mais sentido. Uma convocação, sozinha, não consegue resumir o valor de uma carreira.
Mas quem ficou fora continuará treinando depois que os outros embarcarem.
E quem escolheu ainda terá uma conversa a fazer.
A lista termina no último nome. A responsabilidade de quem escolhe continua.
Obrigado por ler o Lob Infinito.
Se esta edição colocou alguma ideia em movimento, compartilhe com alguém que também precisa escolher — ou que ainda tenta compreender uma escolha.
O jogo é apenas o ponto de partida.
Porque algumas ideias permanecem no ar mais tempo do que a bola.
