Lob Infinito #009 — O que você deixa quando vai embora?
Há uma frase que encontrei recentemente, atribuída a Chico Xavier:

Há uma frase que encontrei recentemente, atribuída a Chico Xavier:
“Deixe o seu melhor por onde passar. A vida costuma nos fazer voltar pelos mesmos caminhos.”
Não consegui confirmar sua origem em uma obra ou registro primário de Chico Xavier. Mas a incerteza sobre a autoria não impede que a ideia mereça alguma atenção.
Principalmente a segunda parte.
A vida costuma nos fazer voltar pelos mesmos caminhos.
Pensei nisso durante algum tempo.
Não pela promessa de reencontrar pessoas, lugares ou oportunidades. A vida não oferece garantias dessa natureza.
Mas pelo que acontece quando voltamos.
Às vezes, encontramos uma porta aberta.
Outras, descobrimos que ela foi fechada muito antes de tentarmos atravessá-la novamente.
E nem sempre sabemos exatamente quando isso aconteceu.
Aquilo que não aparece no placar
Imagine um atleta deixando um clube.
Foram anos de treinamento.
Vitórias, derrotas, divergências com o treinador, conversas difíceis e decisões que nem sempre agradaram a todos.
No último dia, ele recolhe suas coisas.
Cumprimenta algumas pessoas.
Vai embora.
Naquela ocasião, o encerramento parece simples. Um ciclo terminou e outro começará.
Cinco anos depois, ele retorna.
Não necessariamente para competir.
Pode estar procurando uma oportunidade, visitando antigos colegas ou simplesmente acompanhando alguém.
O clube continua no mesmo endereço.
As quadras são praticamente as mesmas.
Mas alguma coisa mudou.
Agora, o que importa não é o ranking que ele tinha quando saiu.
É a memória que sua presença desperta.
Como tratava as pessoas quando estava vencendo?
Como reagia quando perdia?
O que fazia quando alguém precisava de ajuda e não havia benefício algum em oferecer?
São perguntas que raramente aparecem nas estatísticas esportivas.
E, no entanto, participam da construção de uma carreira.
O que a ciência consegue observar
A psicóloga do esporte Sophia Jowett dedica parte importante de sua trajetória acadêmica ao estudo das relações entre treinadores e atletas.
Em uma publicação de 2025, ela revisitou 25 anos de pesquisas sobre o tema, discutindo o modelo conhecido como 3+1Cs: proximidade, compromisso, complementaridade e coorientação.
A proposta é compreender a qualidade da relação não apenas pelo desempenho esportivo, mas também por dimensões afetivas, comportamentais e pela maneira como treinador e atleta compreendem um ao outro.
A literatura examinada indica que essas relações podem desempenhar um papel relevante no desenvolvimento esportivo e pessoal.
Isso não significa que uma boa relação garanta títulos.
Nem que toda relação difícil produza consequências negativas.
Significa reconhecer algo que frequentemente deixamos fora da avaliação de um treinador: um atleta não aprende apenas o que o treinador ensina, mas também com a maneira como é tratado e orientado por ele
Outra investigação, publicada em 2024 na revista Psychology of Sport and Exercise, reuniu 33 estudos sobre programas destinados a melhorar as competências interpessoais de treinadores e pais de jovens atletas.
Na meta-análise, determinadas intervenções apresentaram efeitos positivos pequenos ou moderados em alguns indicadores, entre eles aspectos do ambiente motivacional, prazer pela prática e ansiedade.
Os autores também destacaram limitações metodológicas e a necessidade de pesquisas mais consistentes.
É importante respeitar essa fronteira.
Esses trabalhos não demonstram que gentileza produz sucesso profissional futuro, tampouco que deixar uma boa impressão garante reencontros favoráveis.
Mas oferecem razões para levar a sério uma dimensão do esporte que dificilmente cabe em uma planilha de resultados:
A maneira como participamos da vida de alguém importa para a experiência que essa pessoa constrói.
O Lob Infinito nasceu da vontade de compartilhar perguntas, descobertas e reflexões que começam no esporte, mas raramente terminam nele.
A leitura continuará gratuita.
Mas, se alguma edição já fez você pensar um pouco mais, questionar alguma certeza ou enxergar o jogo de outra maneira, considere apoiar este projeto com uma assinatura paga.
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Luiz Ricardo
O jogo é apenas o ponto de partida.
Nem sempre deixar o melhor significa agradar
Em uma entrevista, o lendário treinador de basquete da UCLA afirmou:
“Você precisa ser firme naquilo que deseja e naquilo em que acredita. Mas, se ouvir aqueles que lidera, terá melhores resultados.”
Tradução livre de declaração de John Wooden à revista T+D.
Aqui existe uma distinção importante.
Ser uma boa presença não significa concordar com tudo.
Um treinador pode precisar retirar um atleta de uma competição.
Um empresário pode precisar encerrar uma parceria.
Um jogador pode decidir procurar outro clube.
Um pai pode precisar dizer não ao próprio filho.
Essas decisões podem provocar frustração.
E continuam sendo necessárias.
Há uma diferença entre agir para preservar uma relação a qualquer custo e agir com respeito mesmo quando a relação atravessa um conflito.
O primeiro caminho pode exigir que você abandone suas convicções.
O segundo exige que você reconheça a dignidade de quem discorda delas.
No esporte, confundimos essas coisas com alguma frequência.
Chamamos de lealdade aquilo que às vezes é apenas obediência.
Chamamos de personalidade forte aquilo que, em determinadas situações, é incapacidade de escutar.
E podemos confundir exigência com a necessidade de demonstrar autoridade.
Nenhum desses comportamentos se torna virtuoso simplesmente porque terminou em vitória.
John Wooden - Carater e reputação:
“Preocupe-se mais com seu caráter do que com sua reputação.”
É uma versão abreviada, traduzida, de outra máxima de Wooden, registrada pelo Los Angeles Times.
O problema de só pensar no retorno
A frase que abriu esta edição também admite uma interpretação bastante conveniente:
Trate bem as pessoas porque um dia poderá precisar delas.
É uma lógica compreensível.
Mas me incomoda.
Se a única razão para oferecer o melhor é a possibilidade de receber alguma coisa no futuro, transformamos a convivência em investimento.
A gentileza vira uma espécie de aplicação financeira.
Você deposita atenção hoje esperando sacar oportunidades amanhã.
Não me parece uma maneira particularmente interessante de viver.
Prefiro outra leitura.
Deixar o melhor por onde passamos não porque voltaremos.
Mas porque alguém continuará ali depois que partirmos.
Um aluno continuará treinando.
Um antigo colega continuará trabalhando.
Uma criança continuará tentando compreender a derrota.
Um atleta continuará carregando algumas das palavras que ouviu.
Não controlamos o que cada pessoa fará com essas experiências. Tampouco somos os únicos responsáveis por elas.
Ainda assim, participamos de sua construção.
E essa responsabilidade existe mesmo quando não haverá reencontro.
Uma pergunta para levar à quadra
Na próxima semana, experimente um exercício simples.
Ao terminar um treino, uma reunião ou uma conversa difícil, não avalie apenas o que conseguiu realizar.
Faça duas perguntas:
O que consegui entregar?
Como tratei as pessoas enquanto tentava entregar?
A primeira ajuda a examinar o resultado.
A segunda obriga a observar o processo.
Não se trata de um instrumento psicológico validado, mas de uma proposta de reflexão sobre o próprio comportamento.
Para quem treina atletas, pode significar perceber como ofereceu uma correção.
Para quem compete, como reagiu ao erro do parceiro.
Para quem educa uma criança, como conduziu uma frustração.
São pequenos acontecimentos.
Daqueles que ninguém registra.
Até que, anos depois, alguém se lembra.
Antes de ir
Aos três leitores desta newsletter deixo uma última pergunta.
Quantas pessoas passaram por sua vida e deixaram alguma coisa que você ainda carrega?
Um conselho.
Uma oportunidade.
Um gesto de respeito em um momento difícil.
Ou uma frase que mudou sua maneira de olhar para determinado problema.
Agora inverta a pergunta.
O que as pessoas carregam depois de passar pela sua vida?
Não sabemos se voltaremos aos mesmos lugares.
Não sabemos quem encontraremos pelo caminho.
E certamente não controlamos a lembrança que os outros construirão de nós.
Mas existe uma parte dessa história que ainda podemos escrever.
Ela acontece enquanto estamos presentes.
Porque, quando o jogo termina, o placar permanece registrado.
O restante segue com as pessoas.
O jogo é apenas o ponto de partida.
Referências
Jowett, S. (2025). 25 years of relationship research in sport: The quality of the coach-athlete relationship as defined by Closeness, Commitment, Complementarity and Co-orientation (3+1Cs Model). Psychology of Sport and Exercise, 80, 102909. https://doi.org/10.1016/j.psychsport.2025.102909
Bengtsson, D., Stenling, A., Nygren, J., Ntoumanis, N., & Ivarsson, A. (2024). The effects of interpersonal development programmes with sport coaches and parents on youth athlete outcomes: A systematic review and meta-analysis. Psychology of Sport and Exercise, 70, 102558. https://doi.org/10.1016/j.psychsport.2023.102558

