Voltar ao blog
28 DE SETEMBRO DE 2026

Lob Infinito #008 — Aos 28, onde você deveria estar?

O ranking mostra a posição de um atleta. Não mostra o peso que ele carrega até chegar lá.

Lob Infinito #008 — Aos 28, onde você deveria estar?

Na sexta passada (25/09/26) conversei com um colega do mundo esportivo.

Ele já foi atleta de alto nível. Agora trabalha como empresário e treinador de um tenista profissional.

Começamos falando de tênis. Em pouco tempo, estávamos falando de passado, futuro, expectativas e de tudo aquilo que um atleta leva para a quadra sem guardar na bolsa.

A conversa nasceu de uma frase dita por um jogador de cerca de 22 anos, durante um torneio ITF. Reproduzo a ideia, não suas palavras exatas:

“Aos 28 anos, eu não quero estar disputando Futures.”

Fiquei pensando naquela idade.

Não nos 22 anos que ele tem.

Nos 28 que ainda não viveu.

Uma frase sobre o futuro

A primeira reação é compreender o jogador.

Os torneios ITF fazem parte do caminho de entrada no tênis profissional. Quem está ali costuma querer avançar. Há rankings a subir, torneios a alcançar, contas a pagar.

É natural que um atleta jovem olhe para aquele circuito e diga: não quero estar aqui para sempre.

O que me chamou a atenção foi outra coisa.

A frase não dizia apenas onde ele gostaria de chegar.

Dizia também o que significaria, para ele, ainda estar naquele lugar seis anos depois.

Mas seis anos não cabem numa frase.

Nesse intervalo, um atleta pode evoluir, se lesionar, trocar de equipe, encontrar apoio, perder apoio, mudar de país, voltar para casa. Pode descobrir que deseja ainda mais o tênis. Pode descobrir outras coisas que deseja também.

Aos 22, ele tenta desenhar uma carreira.

É difícil não desenhar, junto, uma ideia de quem espera ser.

O mesmo torneio, histórias diferentes

Pense em dois jogadores inscritos no mesmo Future.

Um tem 28 anos e sente que ficou para trás.

O outro também tem 28. Depois de um período afastado, voltou a competir. Estar ali é uma conquista que, algum tempo antes, parecia distante.

Se olharmos apenas a chave do torneio, eles estão no mesmo lugar.

Se ouvirmos suas histórias, talvez não estejam.

Isso não transforma dificuldade em romantismo. Viver do tênis fora da elite pode ser financeiramente duro. O desejo de subir no ranking não precisa de correção filosófica; precisa de trabalho, oportunidade e, muitas vezes, recursos.

Ainda assim, quando chamamos uma trajetória de fracasso olhando apenas sua posição, deixamos de perguntar o que aconteceu ao longo dela.

O que aquele atleta precisou atravessar para continuar?

O que ele espera encontrar no próximo degrau?

E o que teme que os outros pensem caso não chegue lá?

O número 3 e o número 300

Nossa conversa chegou a Alexander Zverev.

Em julho de 2025, ele estava entre os melhores tenistas do mundo. Após uma derrota em Wimbledon, falou publicamente sobre solidão e sobre a dificuldade de sentir alegria, mesmo quando vencia.

Foi um relato sobre um momento de sua vida. Não temos como transformá-lo em uma descrição de quem ele é hoje. Mas podemos levar a sério o que ele disse naquele dia.

O número 3 do mundo podia olhar para sua vida e sentir um vazio que o ranking não mostrava.

E o número 300?

Talvez esteja feliz. Talvez esteja esgotado. Talvez acorde animado para treinar e passe a noite preocupado com o custo da próxima viagem.

Não sabemos.

Esse é precisamente o ponto que ficou comigo depois da conversa: sabemos onde os jogadores estão classificados; sabemos muito menos sobre o que estar ali significa para cada um.

Para meus três leitores assíduos, em meio à nossa robusta base de assinantes, deixo uma pergunta mais difícil do que comparar dois rankings:

Se você pudesse conhecer apenas um número da vida de um atleta, escolheria sua posição no mundo ou a distância entre a vida que leva e a vida que gostaria de levar?

Aquilo que o atleta carrega

Uma carreira também se constrói com expectativas que não aparecem nas estatísticas.

A própria.

A dos pais.

A do treinador.

A de quem investiu dinheiro e tempo para que aquela carreira fosse possível.

Algumas ajudam o atleta a continuar quando o caminho aperta. Outras começam a falar tão alto que ele já não sabe distinguir seu desejo da dívida que sente ter com os demais.

Um estudo qualitativo com 21 ex-atletas de elite investigou como eles viveram mudanças de identidade após deixar o esporte. Os relatos mostraram que a experiência da perda da identidade de atleta variava conforme o espaço que outras identidades tinham em suas vidas. A pesquisa trata da aposentadoria esportiva; não explica o que se passa com o jovem tenista daquela conversa. Mas me faz prestar mais atenção à maneira como um atleta aprende a responder à pergunta quem sou eu?

Se a única resposta possível for uma posição no ranking, cada queda terá um peso enorme.

Talvez por isso a frase dita aos 22 anos mereça mais do que incentivo ou contestação.

Mereça curiosidade.

“Por que 28?”

“O que seria difícil, para você, se ainda estivesse aqui?”

“E o que precisaria existir na sua vida para que continuar jogando fizesse sentido?”

Não sei como ele responderia. A conversa que ouvi foi entre ele e seu treinador.

Mas gosto de pensar que um treinador pode ajudar um atleta tanto a perseguir uma meta quanto a entender de onde ela veio.

O que sabemos — e o que ainda estamos interpretando

Sabemos que o circuito ITF é parte do percurso profissional e que avançar nele tem consequências concretas para a carreira. Sabemos também o que Zverev contou sobre si naquele momento de 2025.

Não sabemos como se sente o jogador daquela conversa hoje, nem como se sentirá aos 28. Tampouco sabemos se um tenista na posição 300 é mais feliz do que um na posição 3.

Essa comparação é uma pergunta, não uma conclusão.

Uma pergunta útil, talvez, justamente porque nos impede de confundir aquilo que conseguimos medir com a vida inteira de alguém.

Para levar desta edição

Se você é atleta, vale perguntar:

Aonde quero chegar?

E depois, com a mesma honestidade:

Por que esse lugar importa para mim?

Se você acompanha, treina ou é pai ou mãe de um atleta, há outra pergunta:

Quando falo do futuro dele, estou tentando compreender seus desejos ou entregando os meus?

Nietzsche propõe um experimento inquietante em A gaia ciência: e se você tivesse de viver esta mesma vida novamente, incontáveis vezes, com suas alegrias, suas dores e tudo o que aconteceu entre elas?

A pergunta não exige que cada dia tenha sido feliz.

Ela nos convida a olhar para a vida inteira e perguntar:

Eu desejaria vivê-la outra vez?

Penso no tenista daquela conversa.

Se, aos 28 anos, ele ainda estiver disputando Futures, isso bastará para chamar os seis anos anteriores de fracasso?

E se alcançar o ranking que deseja, mas não encontrar alegria no caminho, bastará para chamá-los de sucesso?

Espero que trabalhe por aquilo que deseja. Espero também que, quando os 28 chegarem, consiga olhar para a própria história antes de decidir o que aquele momento significa.

Uma carreira acontece no tempo.

E uma pessoa acontece em muito mais lugares do que o ranking consegue mostrar.


De onde veio esta conversa

Esta edição nasceu de uma conversa com um colega do esporte sobre um momento de um tenista profissional. A fala do atleta foi apresentada aqui pelo seu sentido, sem pretensão de transcrição literal.

Referências

Obrigado por ler o Lob Infinito.

Nos encontramos na próxima segunda-feira.

O jogo é apenas o ponto de partida.

Porque algumas ideias permanecem no ar mais tempo do que a bola.

Publicado originalmente no Substack
Lob Infinito — newsletter
Abrir no Substack