Lob Infinito #007 - No padel, correr mais pode ser sinal de atraso
O esforço que recebe aplausos nem sempre é o movimento que ganha o ponto.

A bola toca no vidro lateral.
Perde velocidade.
Parece morrer longe de qualquer raquete.
O jogador corre.
Cruza a quadra, estica o braço e consegue devolver a bola a poucos centímetros do chão.
Termina quase ajoelhado.
A arquibancada reage.
O parceiro comemora.
Por alguns segundos, parece que assistimos a uma pequena ressurreição esportiva.
No ponto seguinte, uma bola parecida encontra outro jogador.
Ele já estava ali.
Dois passos.
Ajusta o corpo.
Golpeia.
Sem pressa.
Sem mergulho.
Sem espetáculo.
Ninguém aplaude.
O primeiro lance parece atlético.
O segundo quase não parece nada.
E é justamente aí que mora uma pergunta interessante:
qual dos dois jogadores se movimentou melhor?
Antes de seguir, uma observação aos três leitores assíduos desta newsletter — nossa robusta base de assinantes, firme, resiliente e estatisticamente irrelevante.
Esta edição parece falar sobre correr.
Na verdade, fala sobre perceber antes.
O aplauso escolhe a corrida
O esporte gosta do esforço que consegue enxergar.
Gostamos do atleta que se joga ao chão.
Que atravessa a quadra.
Que alcança a bola impossível.
Que volta ofegante.
O suor funciona quase como um certificado de dedicação.
Quanto maior o sacrifício, maior parece o mérito.
Mas esforço e eficiência não são a mesma coisa.
Peter Drucker escreveu uma frase sobre gestão que cabe surpreendentemente bem dentro de uma quadra:
“Não há nada tão inútil quanto fazer com grande eficiência aquilo que não deveria ser feito.”
Ele falava de organizações.
Mas poderia estar observando um jogador de padel correndo quatro metros em altíssima velocidade para corrigir uma posição que talvez pudesse ter sido resolvida com dois passos dados antes.
O problema não é o esforço.
É quando confundimos esforço visível com eficiência.
A eficiência tem um problema de marketing.
Ela quase nunca chama atenção.
Está no jogador que começa a recuar antes que o lob o obrigue a correr.
Na dupla que se move junta.
Na pequena correção de distância que deixa a bola confortável.
Na frenagem feita antes do golpe.
No passo dado quando aparentemente ainda não havia motivo para se mover.
Essas ações passam despercebidas porque evitam justamente aquilo que nos faria olhar.
Não produzem drama.
Produzem tempo.
E tempo, no padel, é uma forma de luxo.
É possível terminar uma partida exausto porque ela realmente foi exigente.
Também é possível terminar exausto porque passamos duas horas corrigindo com as pernas decisões que chegaram tarde.
Para o corpo, pouco importa.
Uma corrida necessária e uma corrida provocada por mau posicionamento cobram energia do mesmo lugar.
A conta chega igual.
A corrida começa antes do primeiro passo
Quando alguém atravessa a quadra para defender uma bola, nossa atenção vai para a velocidade.
Correu rápido?
Chegou?
Conseguiu devolver?
Mas aquela corrida pode não ter começado quando os pés saíram do chão.
Pode ter começado alguns segundos antes.
Quando o jogador ficou parado depois do próprio voleio.
Quando avançou sem o parceiro.
Quando se aproximou demais da rede.
Quando deixou crescer um espaço entre a dupla.
Quando esperou a trajetória da bola ficar óbvia para só então reagir.
A emergência visível é só o último capítulo.
O corpo corre para corrigir uma história que já vinha sendo escrita.
E chegar à bola também não encerra essa história.
Um jogador pode defendê-la desequilibrado, deixar a quadra aberta e obrigar a dupla a realizar um segundo esforço logo depois.
Chegar atrasado custa duas vezes.
Primeiro, para alcançar.
Depois, para voltar.
Os metros não contam a história inteira
Um estudo publicado em 2026 analisou as demandas externas de jogadoras profissionais em 34 partidas de padel.
A distância média percorrida ficou próxima de 3,6 quilômetros por jogo, acompanhada por centenas de acelerações e desacelerações.
As duplas derrotadas apresentaram valores ligeiramente maiores de distância percorrida e acelerações.
Seria fácil concluir:
quem perde corre mais.
Também seria apressado.
As diferenças foram pequenas e não alcançaram significância estatística.
O estudo não mostra que correr menos faz vencer.
Uma dupla pode se deslocar mais porque jogou pontos mais longos, mais games, enfrentou adversárias diferentes ou adotou outro estilo.
O aparelho mede distância.
Não mede intenção.
Ele sabe que uma atleta percorreu quatro metros.
Não sabe se aqueles quatro metros construíram uma vantagem…
ou apagaram um incêndio.
A tecnologia conta passos.
Interpretar a história continua sendo trabalho nosso.
Por isso, a conclusão mais interessante não é:
correr menos faz vencer.
É outra:
distância percorrida e qualidade do deslocamento não são a mesma coisa.
Um esporte decidido em poucos metros
Outro estudo, realizado com 83 jogadores profissionais em fases decisivas de torneios, encontrou algo que muda a forma de olhar para o jogo.
Cerca de 80% das acelerações e desacelerações aconteceram em distâncias de apenas um a dois metros.
Um ou dois metros.
O padel parece enorme quando assistimos a uma defesa espetacular.
Mas boa parte do jogo acontece em espaços muito menores.
Um passo para fechar o centro.
Dois para ajustar a distância.
Um recuo depois do lob.
Uma frenagem antes do voleio.
Uma recuperação após o golpe.
Um pequeno deslocamento para não abandonar o parceiro.
Movimentos discretos.
Quase invisíveis.
Mas decisivos.
Um jogador pode ser muito rápido atravessando a quadra e continuar atrasado nesses pequenos movimentos.
Pode ter pernas para chegar.
Mas não equilíbrio para jogar.
Pode defender a primeira bola e continuar mal posicionado para a segunda.
Pode ser rápido na emergência e lento na preparação.
É aqui que preparação física e compreensão do jogo deixam de ser assuntos separados.
Uma começa a determinar quanto a outra precisará trabalhar.
Preparado fisicamente para qual jogo?
Dizer que um jogador precisa melhorar fisicamente é quase sempre verdadeiro.
E quase sempre insuficiente.
Melhorar o quê?
Para fazer o quê?
Em qual situação?
Um estudo sobre as diferentes posições em quadra encontrou maior quantidade de acelerações e desacelerações entre jogadores do lado esquerdo.
Isso não transforma o lado esquerdo em uma função obrigatoriamente mais física.
Mostra algo mais interessante:
a função tática modifica a demanda física.
Quem assume mais bolas pelo centro, participa de determinadas ações aéreas ou cobre espaços diferentes enfrenta exigências próprias.
O corpo responde ao jogo que lhe pedimos para jogar.
Por isso, talvez as perguntas mais importantes não sejam apenas:
Quanto ele corre?
Quanto ele salta?
Quanto tempo suporta?
Mas também:
Ele começa a se mover no momento certo?
Consegue frear antes do contato?
Recupera a posição depois do golpe?
Avança e recua junto com o parceiro?
Seus deslocamentos criam vantagem?
Ou apenas evitam o desastre?
Sem essas perguntas, podemos formar um atleta muito bem condicionado para chegar atrasado dezenas de vezes.
Um bombeiro de elite vivendo numa casa onde ninguém se preocupa em desligar o fogão.
Tire a bola da tela
Existe um exercício simples que muda bastante aquilo que costumamos enxergar.
Filme alguns pontos.
Depois assista novamente tentando ignorar a bola.
Olhe apenas para os jogadores.
Parece estranho.
Estamos tão acostumados a seguir a bola que quase todo o resto desaparece.
Mas é justamente ali que algumas respostas começam a surgir.
Observe:
Quando o atleta começa a se mover?
Quando apenas ajusta sua posição?
Quando recupera depois do golpe?
Quando acompanha o parceiro?
Quando precisa correr desesperadamente?
E, principalmente:
o que aconteceu antes dessa corrida?
Não procure primeiro o erro técnico.
Procure a origem do problema.
Nem toda corrida de emergência deve ser eliminada.
Elas pertencem ao padel.
Precisam ser treinadas.
O problema aparece quando a exceção vira método.
Quando o jogador aprende a sobreviver às jogadas, mas quase nunca aprende a chegar antes delas.
Nesse momento, a pergunta deixa de ser:
Como correr mais rápido?
E passa a ser:
O que me permitiria começar antes?
A resposta pode estar na leitura da trajetória.
Na posição inicial.
Na recuperação depois do golpe.
Na distância para o parceiro.
Na frenagem.
Na decisão.
Nem sempre será uma resposta física.
Mas sempre terminará no corpo.
O que sabemos — e o que ainda estamos interpretando
A evidência disponível mostra algumas coisas com razoável clareza.
O padel profissional exige muitas acelerações e desacelerações curtas.
Boa parte delas acontece em apenas um ou dois metros.
E as demandas de movimento mudam conforme posição, função e contexto competitivo.
Isso sabemos.
Também é plausível que melhor posicionamento, frenagem e recuperação reduzam parte dos movimentos de emergência e permitam contatos mais organizados.
Mas essa relação ainda precisa ser testada diretamente no padel.
Os estudos não autorizam dizer que as melhores duplas vencem simplesmente porque correm menos.
Essa frase seria confortável.
E provavelmente renderia uma bela chamada.
Mas a ciência não existe para confirmar a frase mais bonita.
Existe para colocar limites nela.
Minha leitura vai por outro caminho.
Parte do condicionamento que admiramos pode ser apenas a extraordinária capacidade de sobreviver a movimentos que começaram tarde.
E sobreviver bem continua sendo melhor do que não sobreviver.
Só não deveríamos confundir sobrevivência com eficiência.
Eficiência não é economizar esforço o tempo inteiro.
É não desperdiçá-lo.
O jogador eficiente também corre.
Também salta.
Também freia.
Também sofre.
A diferença é que seu esforço costuma estar a serviço do ponto.
Não da correção permanente da própria posição.
As grandes defesas continuarão recebendo aplausos.
E merecem.
Há beleza em buscar uma bola que parecia perdida.
Mas antes dessa defesa existir, outra habilidade pode ter passado completamente despercebida no ponto anterior.
Um passo pequeno.
Uma distância preservada.
Uma dupla que se move junta.
Um corpo que chega organizado.
Nenhuma arquibancada se levanta para celebrar isso.
O jogo, sim.
Para levar desta edição
Correr muito não prova que o jogador se movimentou bem.
Grande parte das acelerações e desacelerações do padel profissional acontece em apenas um ou dois metros.
Antes de treinar alguém para chegar mais rápido, vale investigar por que ele começou tão tarde.
O melhor deslocamento nem sempre é o mais veloz.
Muitas vezes, é aquele que começou antes de parecer necessário.
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De onde veio esta conversa
Miralles et al. (2026). Análise das demandas externas e das diferenças relacionadas ao resultado em partidas profissionais femininas de padel. Biology of Sport.
Miralles et al. (2025). Demandas de aceleração, desaceleração e deslocamento em jogadores profissionais de padel. International Journal of Sports Science & Coaching.
Estudo sobre demandas físicas conforme a posição ocupada no padel profissional. Sensors, 2025.
Obrigado por ler o Lob Infinito.
Se esta edição colocou alguma ideia em movimento, compartilhe com alguém que também observa o jogo para além da bola.
Nos encontramos na próxima segunda-feira.
O jogo é apenas o ponto de partida.
Porque algumas ideias permanecem no ar mais tempo do que a bola.

