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07 DE SETEMBRO DE 2026

Lob Infinito #005 — Seu filho perdeu. E agora, de quem é essa derrota?

A tarefa mais difíceis no esporte não aconteça dentro da quadra.

Lob Infinito #005 — Seu filho perdeu. E agora, de quem é essa derrota?

Acontece do lado de fora.

Na arquibancada.

No corredor.

No carro.

Alguns minutos depois de uma derrota.

Seu filho entra.

Fecha a porta.

Coloca a mochila no banco.

E você sabe exatamente o que aconteceu.

Ele poderia ter atacado aquela bola.

Não precisava ter cometido aquela dupla falta.

No 5–5 quis buscar ângulo.

Treinou a semana inteira justamente saida de vidro e errou diversas vezes.

Você viu.

Ele viu.

Até o Spike percebeu (cachorro da família).

Então começa um dos momentos mais importantes na formação do atleta.

E ninguém está mais jogando.


O silêncio do carro

Tenho pensado bastante sobre essa cena.

Porque durante uma competição existem pelo menos duas experiências acontecendo simultaneamente.

Existe o atleta tentando competir.

E existe alguém na arquibancada tentando sobreviver emocionalmente ao fato de assistir alguém que ama competir.

São coisas diferentes.

O jovem perde uma partida.

A mãe talvez veja meses de treinamento.

O pai talvez veja quilômetros dirigidos.

Inscrições.

Hotéis.

Raquetes.

Dinheiro, muito dinheiro.

Finais de semana.

Horas esperando.

Expectativas.

Sonhos.

Medos.

É compreensível.

O esporte dos filhos também atravessa os pais.

Uma revisão sistemática sobre a experiência parental no esporte juvenil, reunindo dezenas de estudos qualitativos, mostra justamente isso: acompanhar um filho no esporte produz consequências emocionais, sociais, relacionais e práticas também para os adultos.

Os pais não são figurantes dessa história.

Eles também vivem o esporte.

O problema começa quando essas duas histórias se confundem.


Quando “nós perdemos”

Há uma pequena frase que sempre me chama atenção:

“Nós jogamos mal hoje.”

Nós?

Maneira de falar?

Provavelmente não é.

Aos poucos o resultado da criança passa a habitar a identidade dos adultos.

Nós vencemos.

Nós perdemos.

Nós precisamos melhorar o saque.

Nós estamos jogando muito defensivamente.

E surge uma fronteira delicada.

A participação saudável pode lentamente transformar-se em apropriação.

O projeto esportivo deixa de pertencer completamente ao atleta.

Passa a pertencer à família.

E talvez ninguém perceba exatamente quando isso aconteceu.


Amor também pode pesar

Existe uma ideia confortável:

pais que pressionam seus filhos são pais ruins.

Não acredito nisso.

Na maior parte das vezes acredito exatamente no contrário.

São pessoas tentando ajudar.

Querendo oferecer oportunidades.

Tentando proteger.

Tentando evitar que o filho desperdice habilidade.

Tentando fornecer aquilo que talvez elas próprias nunca tenham recebido.

E justamente por isso essa conversa é difícil.

Porque pressão nem sempre nasce da falta de amor.

Às vezes nasce do excesso de esperança.

Uma revisão sistemática publicada em Frontiers in Psychology reuniu 29 estudos, 9.185 jovens atletas e 2.191 pais.

Os resultados apontaram associações mais favoráveis à motivação quando havia:

apoio à autonomia;

envolvimento parental moderado;

relações positivas;

valorização do desenvolvimento;

e um ambiente mais orientado para tarefa e aprendizagem.

Em contraste, comportamentos mais controladores, diretivos e excessivamente centrados no desempenho apareceram associados a experiências menos favoráveis.

Isso não significa:

“pais devem se afastar.”

Significa algo muito mais difícil:

estar perto sem tomar o volante.


Qual deve ser a pergunta?

Depois da derrota costumamos perguntar:

“Por que você fez aquilo?”

Ou:

“O que aconteceu no segundo set?”

Ou ainda:

“Por que não jogou como treinou?”

São perguntas razoáveis.

Mas existe uma possibilidade incômoda.

Talvez o atleta ainda nem saiba.

Talvez esteja frustrado.

Talvez esteja envergonhado.

Talvez tenha medo da sua reação.

Talvez esteja tentando entender por conta própria uma experiência que acabou de atravessar.

E então oferecemos imediatamente nossa análise.

Tenho outra pergunta:

Quem precisa daquela conversa naquele momento?

O filho?

Ou o pai?


O placar invisível

Existe um placar que os jovens atletas aprendem a observar muito cedo.

E ele não fica pendurado na quadra.

Fica na arquibancada.

Uma expressão facial.

Um olhar.

Um movimento de cabeça.

Braços cruzados.

O silêncio depois de um erro.

A criança olha.

E interpreta.

Não precisamos dizer:

“Estou decepcionado.”

“Estou fazendo merda.”

Às vezes nosso rosto já fez o discurso inteiro.

É especialmente interessante porque pesquisas nessa área mostram que aquilo que importa não é somente aquilo que os pais acreditam estar fazendo.

Importa também como o comportamento parental é percebido pelo atleta.

Pai:

“Eu só estava tentando ajudá-lo.”

Filho:

“Meu pai ficou bravo porque eu perdi.”

As duas frases podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.


O perigo da análise instantânea

Imagine você (pai/mae) saindo de uma reunião importante.

Apresentou um projeto.

Foi mal.

Entrou no carro.

E alguém imediatamente começa:

— Na terceira parte você falou rápido demais.

— Aquela resposta foi ruim.

— Você deveria ter explicado melhor.

— Eu te avisei sobre aquela apresentação.

Depois de três quilômetros surjirá um homicídio perfeitamente compreensível.

Agora imagine ter doze anos.

Nós chamamos isso de feedback.

A criança talvez chame apenas de:

“meus pais só falam comigo sobre o jogo.”


Pai não é treinador

Talvez uma das fronteiras mais importantes no esporte juvenil seja também uma das mais difíceis:

quem faz o quê?

O treinador ensina.

O atleta joga.

Os pais sustentam o ambiente que permite que tudo isso exista.

Obviamente essas fronteiras não são absolutas.

Um pai pode entender profundamente do esporte.

Uma mãe pode ter sido atleta.

Às vezes conhece o jogo melhor do que o próprio treinador.

Ainda assim existe uma pergunta útil:

qual papel meu filho precisa que eu desempenhe agora?

Porque existe um risco curioso.

Uma criança pode acabar tendo:

um treinador na quadra,

um treinador na arquibancada,

e outro treinador dirigindo o carro para casa.

Três treinadores.

E nenhum pai.


Apoiar autonomia não significa abandonar

Aqui existe outra confusão frequente.

Dar autonomia não significa:

“faça o que quiser”.

Também não significa ausência de exigência.

Pais continuam colocando limites.

Organizando horários.

Pagando contas.

Cobrando compromisso.

Ensinando responsabilidade.

A diferença está em algo mais profundo:

de quem é o projeto?

Posso exigir que meu filho respeite o compromisso que assumiu.

Mas talvez eu não possa exigir que ele deseje aquilo tanto quanto eu desejo.

Essa diferença parece pequena.

Não é.


Uma pergunta brutalmente simples

Imagine que amanhã seu filho diga:

“Não quero mais competir.”

O que morreria naquele instante?

Somente a carreira esportiva dele?

Ou alguma coisa dentro de você?

Talvez essa pergunta revele muita coisa.

Porque quanto mais nossa própria identidade estiver investida na trajetória esportiva de uma criança, mais difícil será permitir que aquela trajetória pertença verdadeiramente a ela.


A viagem de volta

Então voltamos ao carro.

A porta fecha.

Ele perdeu.

Talvez tenha jogado muito mal.

Você viu vinte coisas para corrigir.

Ótimo.

Guarde dezenove.

Melhor, guarde as vinte.

Não porque elas não importam.

Mas porque nem toda verdade precisa ser dita imediatamente.

Naquele momento existe uma pergunta melhor:

“Você quer falar sobre o jogo ou prefere deixar para depois?”

Há algo muito poderoso aí.

Porque pela primeira vez depois da competição o atleta recebe algo que perdeu durante algumas horas:

controle.

Se quiser falar, escute.

Se não quiser, dirija.

Pergunte sobre comida.

Coloque música.

Conte alguma bobagem.

Voltem para casa.

O treinador poderá analisar o jogo.

O vídeo poderá ser revisto.

O saque poderá ser corrigido.

A decisão tática poderá ser reconstruída.

Mas existe algo que talvez seja muito mais difícil de reconstruir:

a sensação de que o amor de quem está no banco da frente não muda conforme aquilo que aparece no placar.


Um exercício para pais e mães

Na próxima competição, tente algo simples.

Antes do jogo, pergunte ao seu filho:

“O que você gostaria de receber de mim hoje?”

Talvez ele diga:

“torce.”

“não fala nada.”

“me lembra de respirar.”

“não fica fazendo cara feia.”

“fica perto.”

Ou talvez simplesmente:

“não sei.”

Tudo bem.

Depois da partida, faça apenas uma pergunta:

“Quer conversar agora ou depois?”

E aceite a resposta.

Parece pouco.

Talvez seja enorme.


Há dezenas de coisas que podemos oferecer a um jovem atleta.

Dinheiro.

Estrutura.

Treinamento.

Equipamentos.

Viagens.

Oportunidades.

Contudo a coisa mais valiosa será:

um lugar para onde ele possa voltar quando perder.

Sem precisar explicar imediatamente.

Sem precisar justificar.

Sem precisar continuar sendo atleta.

Apenas filho.

Porque no fim das contas a grande missão de pais e mães no esporte não é produzir campeões.

É algo muito mais difícil:

acompanhar alguém enquanto ele tenta descobrir quem deseja se tornar.

E continuar ali quando o placar disser que hoje não deu.


Bibliografia

Gao, Z., Chee, C. S., Norjali Wazir, M. R. W., Wang, J., Zheng, X., & Wang, T. (2024). The role of parents in the motivation of young athletes: a systematic review. Frontiers in Psychology, 14, 1291711. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2023.1291711

Harwood, C. G., & Knight, C. J. (2015). Parenting in youth sport: A position paper on parenting expertise. Psychology of Sport and Exercise, 16, 24–35. https://doi.org/10.1016/j.psychsport.2014.03.001

Knight, C. J., Boden, C. M., & Holt, N. L. (2010). Junior tennis players’ preferences for parental behaviors. Journal of Applied Sport Psychology, 22(4), 377–391. https://doi.org/10.1080/10413200.2010.495324

Lindstrom Bremer, K. (2012). Parental involvement, pressure, and support in youth sport: A narrative literature review. Journal of Family Theory & Review, 4(3), 235–248. https://doi.org/10.1111/j.1756-2589.2012.00129.x

Sutcliffe, J. T., Fernandez, D. K., Kelly, P. J., & Vella, S. A. (2024). The parental experience in youth sport: a systematic review and qualitative meta-study. International Review of Sport and Exercise Psychology, 17(1), 236–263.


O jogo é apenas o ponto de partida.

Publicado originalmente no Substack
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